Eu deveria ter vergonha disso, mas quer saber? Não tenho. Artistas plásticos expõe xeróx da bunda e usam literatura vitoriana pra conceituar. Acho feio, e daí? Eu tenho pensamentos, tenho um teclado (apesar de ainda preferir papel e caneta), então devo escrever. Mesmo que as palavras sejam tão ruins que indignas de salvação, que partam das minhas mãos com destino certo para as chamas da lareira, não importa. É um maldito desejo por não-atenção que conduz esses pensamentos para fora de seu receptáculo perfeito - e conduz muito mal, obrigada. Nessa cena caoticamente quase imprestável surgiu Rachel.
Não, mentira. Eu sonhei com ela. Não sei o que havia comido que me fez sonhar com ela caindo do avião. Era uma forma tão ridícula de morrer - e não me perdoem pela indelicadeza - que eu precisei escrever sobre isso. Se o sonho tivesse acontecido alguns meses depois entraria em outra história, viraria roteiro de gaveta. Pobre Rachelque caiu do avião sobre meu travesseiro numa noite que precedeu o dia em que eu estava inspirada. Ganhou 57 páginas (preguiçosas, de 1.5 entrelinhas) de loucura. Ganhou uma irmã caçula maluca e rabugenta, um quase marido propenso a ter um enfarte daqui a 10 segundos, e um cunhado que todas desejam à Afrodite. E perdeu o papel principal.
O que eu ganhei? Terminei alguma coisa. Fechei mais um ciclo. Fiz tudo de forma objetiva, como eu não costumo fazer. Isso é muito mais do que eu estou acostumada. E ainda vou ter o que ler no final do ano, quando tudo estiver cinza e desanimado e eu quiser ter minha crise narcisista. Também é um incentivo, não só para mim; mas a todas as minhas amigas que me incentivaram (na verdade que nos inventivamos juntas) a escrever para nós mesmas.
Escrever não é uma escolha. Até essas palavras esquizofrênicas, bagunçadas têm um objetivo. Quando eu não escrevo, sinto como se fosse perder a lembrança daquela momento em que não deixei minha impressão sobre o mundo. As palavras me fazem sentir o mesmo vento no cabelo do final do outono de 2007. O passeio no verão de 1994 (que foi remetido graças ao balanço no verão de 2002). Está tudo diluido por aí, quando releio tudo vou apenas juntando as peças. Talvez um dia eu ponha um vidro sobre elas e exponha. Talvez um dia.

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