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2011/03/04

Confettis Vernales

Balões não são confetes pois não são feitos de açúcar nem de papel.
Duas horas.
O ritmo do trabalho vai diminuindo, as pessoas vão saindo cedo, muitos cumprimentos... Tudo  indica que não falta muito agora para um delicioso, longo e tranquilo feriado. Mas você ainda tem trabalho e não quer ir para casa pensando nas pendências, você quer ir para casa curtir o feriado. Então, nesse momento você precisa dedicar-se completamente a suas tarefas; não planejar o feriado. Você tem tudo nas suas mãos (um computador?!) para livrar sua consciência de um peso desnecessário por quatro dias, e o mínimo que você pode fazer é se concentrar. Simples, não?

Não.  


Uma hora.
A folia começa em pontos dispersos e cores diversas. Poesia. Gradativamente as ruas vão se enchendo de felizes desempregados ou muito bem empregados, estudantes e famílias em folga. Batuques e sons e vozes ao longe compõe um cântico hipnótico que lhe encaminha para outro problema que não aquele piscando no seu monitor: como passar por toda essa gente para chegar em casa? Você recorda outras ocasiões nada agradáveis em que teve de passar pelo meio do amontoado de gente que insiste em encontrar a felicidade num grande mar de possibilidades causais casuais. 

Meia hora.
O monitor já entrou em espera. E você também. Já desistiu da idéia de ter um feriadão saudável e vai se encher de álcool para não pensar em todo o trabalho que estará por fazer a partir do momento em que as faxineiras lhe expulsarem do escritório. Ainda há uma esperança, no entanto! Quente e úmida vem a chuva através de interjeições negativas de seus colegas. Por baixo da mesa você ensaia um gesto de comemoração. A chuva vai mandar aquele povo todo para casa.Finalmente você vai poder com a previsão de paz.

Puta que me pariu, está chovendo! 


É claro que está chovendo. Você lavou roupa, deixou o carro na oficina,  veio com sapato aberto e tirou a sombrinha da bolsa. Você vai se molhar. Suas roupas vão precisar ir para trás da geladeira, porque vai chover por todos os quatro dias de feriado. Sem nenhuma possibilidade de sol, você não vai mais para a praia durante o feriado. Mudança de planos, agora vai ser de filmes para relaxar, mas quais? Google. 

18h55
Todos já foram embora na sua sala. Um último perdido lhe pergunta se vai dormir no escritório, educadamente você o responde que está esperando a chuva estiar. Está? Lá fora não há mais barulho, nem água, nem gente. Só um burburinho vindo das paredes do escritório que vai aumentando. Você olha para fora, olha para o monitor, fora, monitor, fora, monitor, fora, porta. Porta(!) Está logo ali, parada com o esfregão na mão e o rostos desafiador de quem está fazendo maior sacrifício do que você. 

18h58
Você desliga o computador com pesar, consciente de que os arquivos vão ficar anexados em suas artérias, acumulando-se para um dia - talvez próximo, talvez longíquo - transformarem-se num enfarto fulminante. A faxineira lhe cumprimenta com um aceno de cabeça, você corresponde. No segundo em que vocês trocam olhares, você se põe no lugar dela. E a sexta-feira dela estava só começando.

19h00
Então você sai para a rua e a chuva deu uma trégua. Mas fez bem seu trabalho, cores diversas sobem a rua fazendo o caminho de volta para casa. Vozes silenciaram. Batuques ficaram suaves e o cântico cessou. Resta o cheiro de cerveja choca misturado ao suor de quem saiu do trabalho no meio da chuva e meia dúzia de tules e crianças teimosas com fantasias vergonhosamente apertadas. Sim, eles tiveram uns bons trinta minutos de folia. Podem ir pra casa, quem sabe amanhã eu me junte a vocês.

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