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2011/02/27

"Cadernos de Manuela"

O som ritmado das rodas do ônibus deslizando no asfalto seco me devolve lembranças de todas as vezes que fiz aquele caminho. Sobre todas as circunstâncias e sentimentos, as que prevalescem são lembranças de quando não tinha capacidade de perceber o efeito do tempo. Uma criança perdida nas ilusões da suposta eterna espera de crescer. Só agora me dou conta de que era feliz com minha pouca idade. Mesmo sem ter as bonecas mais humanas, tinha amigos mais leais, ideais mais absolutos e um universo muito maior a ser explorado. Falta-me a inocência daqueles dias. Não a inocência ardil das brincadeiras, mas a inocência decorrente da ignorância. Eu tinha um universo muito maior e era feliz poirque não fazia idéia do que havia nele.

Singularmente, sei o exato momento em que tal ignorância se foi. Eu estava cercada por toda a família em um rito vivido todos os anos na mesma data. Conforme o canto que entoavam ganhava mais vigor, explodia a bolha da inocência que outrora me cercou.  De súbito, senti o que se passava ao meu redor; ondas de frio e calor que culminavam em lágrimas e risos. Passaram-se anos e não me acostumei com essa invasão diária. Todos os dias, em segredo, peço que minha bolha nasça de novo. 

O vento que penetra minha pele não leva embora meus anseios como dizem as baladas do campo. Ao contrário, ele me fere com as adagas do sobejo. Há muitos ciclos que venho fechando com farpas que em instantes como esse vêm me ferir. Os assuntos que pendem, ganham asas, chifres, caudas e olhares furiosos para virem cobrar de mim uma resolução. No entanto, eu os acalento entre meus braços, pois temo findar todos os laços e perder a ponta. Não ter mais como voltar. Temo não poder encontrar aquele instante no meio estrada.  

Hoje o inverno se abateu sobre o litoral. Sem convites, sem anúncios. Chegou trazendo aquela dor em meu peito que prenuncia transformação. Um ciclo se encerrou com o cortejo do vento sul e pesadas nuvens que, fortes, refreavam as gotas do melancólico choro da despedida. Quando Lillies silenciosamente se deita em meu ombro, uma certeza recai sobre mim: é tempo de não mais crer na premissa de que adeus significa até logo.


2011/02/24

Umidade relativa do globo ocular

Sabe,muitas vezes,quando me olho no espelho,e vejo aquela menininha sonhadora, que gostava de brincar de boneca, enquanto conversava com seu amigo imaginário sorrindo sobre todas as coisas,sem pensar no amanhã.
Ah,saudades desses tempos.Mas quando pego-me olhando para trás, e vejo esse meu reflexo,e automaticamente, volto para o presente.

E o que vejo?


Essa menina cresceu, e agora, a imagem contida no espelho é a realidade.
Vejo, um rosto forte de mulher, mas ao mesmo tempo,aquela delicadesa do rosto de menina que certamente,sempre estará contida em mim.
Tantas responsabilidades a zelar, minha vida tendo que tomar o rumo que vou decidir, mas não sei ainda para onde ela vai.

Simplesmente...
não sei.

Hoje,meu coração estava machucado de todas as formas possíveis.
Em certo momento, o cobrador do ônibus,olhou-me rapidamente, provavelmente,assustado com as lágrimas que escorriam por meu rosto.
Talvez, o que eu não havia chorado durante meses, chorei naquele momento...

Incrível como fui discreta!!
Só ele havia percebido,e eu não tinha vontade de que mais ninguém o fizesse.
Não irei declarar aqui os motivos,já que não quero gerar conflitos.

Só me pergunto:
quando vou parar de sofrer dessa maneira?

Talvez você me compreenda,talvez não...
mas eu estou aqui,com ás lágrimas contidas em meus olhos,esperando que elas não caiam novamente...

Ai,droga ...

é tarde demais.


Lillies

2011/02/20

Oh! How I miss the 50's!

Lillies, confesso que admiro Starhawk em sua fervorosa idealização romântica que parte dos anos 80 para um período do futuro em que não há mais fontes não-renováveis e os cristais aliados ao poder da mente podem ser a fonte de toda energia que precisamos. Mas que fique claro que nesse mundo não há computador. Não me recordo se as comunidades tem algum tipo de contato que não o pessoal - sim, e eles atravessam desertos para passar uma mensagem. Meu ponto é que, esses personagens tem tempo! Essa grande teia microcósmica criada por Starhawk em "A Quintessência Sagrada" - aqui interpretada com base em memórias de uma leitura de pelo menos meia dúzia de anos atrás - faz-me pensar: que saudade dos anos 50!  

Quando tratamos com o passado, geralmente pensamos em todo o conforto que temos hoje. Ultimamente tenho achado que o preço deste conforto é alto demais para uma vida só. Computadores  são grandes monstros alienígenas malignos que tem uma dieta rica baseada em tempo. Essas máquinas estão aqui apenas para comer meu tempo! Eles comem as horas e em troca deixam-nos apenas palitinhos digitais que correm diante de nossos olhos. Nos anos 50 eu não era capaz de ver o tempo passar. Era como a translação da Terra, andava calmo, paciente, esperava por nós. Eu podia sentar na frente da TV (e ter uma TV de madeira já era uma grande mordomia) assistir uma série de 30 minutos com efeitos especiais ruins sem ninguém me perturbando com os efeitos negativos que tal aparelho provoca no intelecto. Eu não precisava me preocupar em acompanhar a saga da série ou falar para todos os outros telespectadores o que eu tinha achado do episódio X. Eu não "perdia" tempo na televisão, eu ganhava. Assistia sem culpa por algumas horas por semana e reunia alguns vizinhos no sábado à tarde para assistir a um filme - e não ter que ir ao cinema era uma boa coisa. 
Ok. Hoje ninguém morre mais de gripe, catapora ou caxumba.  Ainda assim, tenho que me preocupar com vários tipos de vírus que não podem me infectar, mas quando infectam meu computar afetam meu organismo como se pudessem me levar ao óbito. De fato, minha relação com o computador não é nada amigável. A hostilidade pulsa firme entre meus dedos e o teclado, que por acaso é mais leve do que as teclas da máquina de escrever. E por isso todos pensam que não podem fazer nada, porém, é uma conspiração. As leves teclas lhe seduzem até que você adquire uma bela dose de tendinite que se espalha pelo braço e lhe põe para longe da fronteira inimiga por um tempo.  Nesse pequeno espaço temporal você vai fazer todas as outras coisas que você não fez porque estava lutando com  - é o que você pensa - seu computador e percebe que na verdade esteve preso num casulo durante pelo menos a última década. Quer assistir TV ruim, ler os livros que estão apoiando a escrivaninha (que não tem papel e caneta, mas uma tela, teclado e fios), cozinhar sua comida ruim ao invés de comer coisas de procedência duvidosa (mesmo que a embalagem diga de onde vieram os ingredientes), subir numa árvore e pegar uma goiaba - tarde demais, seu braço está condenado para sempre... E você? Preso a uma cadeira com rodinhas por um fio do fone de ouvido, alimentando seu pequeno e prático monstro de silício. 

Boa sorte gente moderna.

2011/02/15

The better thing in the world

Não sei lhe dizer qual seria, ou qual é a melhor coisa do mundo.
talvez se conseguíssemos perguntar aos Deuses do Olimpo,saberiamos a resposta.
Bom,talvez não só aos Deuses do Olimpo,mas quem sabe,a resposta não está em nós mesmos?
Eu por exemplo, não sei dizer,pois não descobri isso em mim ainda.
Ou talvez não queira admitir.
Talvez resposta, esteja em uma outra dimensão,uma outra galáxia distante,ou atrás do meu ouvido,tentando gritar,mas eu não escuto.
Agora, mudando de foco...ás vezes tenho medo do que penso...e você,não?
quando penso de uma maneira muito forte, parece que esses pensamentos estão saindo pela minha pele,bom, pode se pensar,como a respiração cutâne de um bicho se quiser...
Tanto como os pensamentos,meus sonhos me assustam de vez em quando,de repente,arrasto coisas tão antigas, que não sei como foram parar em minha mente,em uma simples noite de sono.
Na noite passada, sonhei que dançava muito, eu faço isso todo o tempo,mas vi pessoas,que estão tão distantes de mim,muito próximas em meu sonho...
Ah, a magia...Quando será que vou conseguir compreende-la?
Mais uma vez, acho que a resposta está em algum lugar dentro de mim.

Gostaria de agradeçer marshmallows,por ofereçer-me as cabeças de sua prateleita,mas não tenho espaço em meu quarto,
acho que Hermes vai ter que se virar com elas,afinal,esse é o trabalho dele.



lillies

2011/02/14

22h22

Minha querida Lillies,

Hermes uma vez me disse que eu deveria procurar entender os outros. E eu fiz. Entendi-os tanto que percebi que nada do que falavam possuía o menor fundamento. O tempo que perderam tentando encontrar sentido em artifícios dispensáveis, as horas que passaram discutindo sobre um futuro que lhes seria tomado na manhã seguinte? Por quê continuam a fazê-lo? Todo esse palavratório e pensamentos são decorrência de medo incondicional do silêncio, do escuro e do constrangimento. Cortei-lhes as cabeças para que aprendessem a conviver com o silêncio nas tardes - finalmente longas - de domingo. 

Prepotente? Talvez. Mas não me importo.

Eu não quero mais essa coleção, não hoje, pelo menos. Posso mandá-la a você. Foi-me útil por uns dias, até que algo indefinido e indecifrável aconteceu - não me questione, não sei o que é - e eu entreguei as cabeças a Hermes. Ele deve estar perdido, sem destino tentando encontrar um fim para essa pequena amostra do poder de Ares. Ainda não gosto de pessoas. Mas e daí? Não preciso me importar com elas e com suas ações decorrentes da falta de auto-estima. Elas não merecem o lugar que estavam ocupando na minha prateleira.  

Egoísta? Muito. 

Hermes que se vire para entregar essas cabeças. Se você não as quiser, posso mandar como oferenda à Medusa. Ou que Hermes as defenestre se ficar entediado, cansado, bravo, ou se quiser apenas tirar sarro. 

 Sinceramente,


Marshmallows.









2011/02/10

Simplesmente Defenestrar.

Ás vezes, pego-me pensando se o mundo é ou não injusto.
Em certos momentos,parece que tudo,ABSOLUTAMENTE TUDO, está contra nós.
E por acaso acha que estou mentindo? Já sentiu aquele bichinho pinicando no pé do seu ouvido, dizendo:'' Por quê isso não acontece com você? Por acaso você e diferente dos demais?"
Ah, faça-me um favor!
Por quê o mundo não me dá uma chance.Pois é, acho que dei muito ênfaze à aquele bichinho.
Penso que uma solução fácil,seria virarmos defenestradores..(Pessoas que tem o hábito de jogar algo ou alguém pela janela)mas poderiamos acabar no xadrex(isso não é uma ideia boa, na minha concepção).
Mas se está se perguntando o por que dessa maluquice,é simplesmente:Qual é o problema do mundo com a gente?Sim, com a GENTE, porque eu não tenho problema com o mundo.
Assim,eu penso que a vida parece uma selva,como os animais, um quer comer o outro(no sentido literal,por favor!).Quem não quer ser feliz?Quem não quer amar, ser amado, sorrir,gritar,chorar...enfim o que der na telha.
Ah, só pra acrecentar, não sou revoltada não, muito pelo contrário, eu amo a vida, o problema é que ela não me dá umachance.
E você minha cara,gostaria de me ajudar a defenestrar alguém?
Isso, liberte-se(não me comprometo se forem para o xadrez!Cada um com seus problemas)
ou pergunte pra marshmallows, ela está começando a criar uma pilha de cabeças em sua prateleira.