Lillies, confesso que admiro Starhawk em sua fervorosa idealização romântica que parte dos anos 80 para um período do futuro em que não há mais fontes não-renováveis e os cristais aliados ao poder da mente podem ser a fonte de toda energia que precisamos. Mas que fique claro que nesse mundo não há computador. Não me recordo se as comunidades tem algum tipo de contato que não o pessoal - sim, e eles atravessam desertos para passar uma mensagem. Meu ponto é que, esses personagens tem tempo! Essa grande teia microcósmica criada por Starhawk em "A Quintessência Sagrada" - aqui interpretada com base em memórias de uma leitura de pelo menos meia dúzia de anos atrás - faz-me pensar: que saudade dos anos 50!
Quando tratamos com o passado, geralmente pensamos em todo o conforto que temos hoje. Ultimamente tenho achado que o preço deste conforto é alto demais para uma vida só. Computadores são grandes monstros alienígenas malignos que tem uma dieta rica baseada em tempo. Essas máquinas estão aqui apenas para comer meu tempo! Eles comem as horas e em troca deixam-nos apenas palitinhos digitais que correm diante de nossos olhos. Nos anos 50 eu não era capaz de ver o tempo passar. Era como a translação da Terra, andava calmo, paciente, esperava por nós. Eu podia sentar na frente da TV (e ter uma TV de madeira já era uma grande mordomia) assistir uma série de 30 minutos com efeitos especiais ruins sem ninguém me perturbando com os efeitos negativos que tal aparelho provoca no intelecto. Eu não precisava me preocupar em acompanhar a saga da série ou falar para todos os outros telespectadores o que eu tinha achado do episódio X. Eu não "perdia" tempo na televisão, eu ganhava. Assistia sem culpa por algumas horas por semana e reunia alguns vizinhos no sábado à tarde para assistir a um filme - e não ter que ir ao cinema era uma boa coisa. Ok. Hoje ninguém morre mais de gripe, catapora ou caxumba. Ainda assim, tenho que me preocupar com vários tipos de vírus que não podem me infectar, mas quando infectam meu computar afetam meu organismo como se pudessem me levar ao óbito. De fato, minha relação com o computador não é nada amigável. A hostilidade pulsa firme entre meus dedos e o teclado, que por acaso é mais leve do que as teclas da máquina de escrever. E por isso todos pensam que não podem fazer nada, porém, é uma conspiração. As leves teclas lhe seduzem até que você adquire uma bela dose de tendinite que se espalha pelo braço e lhe põe para longe da fronteira inimiga por um tempo. Nesse pequeno espaço temporal você vai fazer todas as outras coisas que você não fez porque estava lutando com - é o que você pensa - seu computador e percebe que na verdade esteve preso num casulo durante pelo menos a última década. Quer assistir TV ruim, ler os livros que estão apoiando a escrivaninha (que não tem papel e caneta, mas uma tela, teclado e fios), cozinhar sua comida ruim ao invés de comer coisas de procedência duvidosa (mesmo que a embalagem diga de onde vieram os ingredientes), subir numa árvore e pegar uma goiaba - tarde demais, seu braço está condenado para sempre... E você? Preso a uma cadeira com rodinhas por um fio do fone de ouvido, alimentando seu pequeno e prático monstro de silício.
Boa sorte gente moderna.
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