O som ritmado das rodas do ônibus deslizando no asfalto seco me devolve lembranças de todas as vezes que fiz aquele caminho. Sobre todas as circunstâncias e sentimentos, as que prevalescem são lembranças de quando não tinha capacidade de perceber o efeito do tempo. Uma criança perdida nas ilusões da suposta eterna espera de crescer. Só agora me dou conta de que era feliz com minha pouca idade. Mesmo sem ter as bonecas mais humanas, tinha amigos mais leais, ideais mais absolutos e um universo muito maior a ser explorado. Falta-me a inocência daqueles dias. Não a inocência ardil das brincadeiras, mas a inocência decorrente da ignorância. Eu tinha um universo muito maior e era feliz poirque não fazia idéia do que havia nele.
Singularmente, sei o exato momento em que tal ignorância se foi. Eu estava cercada por toda a família em um rito vivido todos os anos na mesma data. Conforme o canto que entoavam ganhava mais vigor, explodia a bolha da inocência que outrora me cercou. De súbito, senti o que se passava ao meu redor; ondas de frio e calor que culminavam em lágrimas e risos. Passaram-se anos e não me acostumei com essa invasão diária. Todos os dias, em segredo, peço que minha bolha nasça de novo.
O vento que penetra minha pele não leva embora meus anseios como dizem as baladas do campo. Ao contrário, ele me fere com as adagas do sobejo. Há muitos ciclos que venho fechando com farpas que em instantes como esse vêm me ferir. Os assuntos que pendem, ganham asas, chifres, caudas e olhares furiosos para virem cobrar de mim uma resolução. No entanto, eu os acalento entre meus braços, pois temo findar todos os laços e perder a ponta. Não ter mais como voltar. Temo não poder encontrar aquele instante no meio estrada.
Hoje o inverno se abateu sobre o litoral. Sem convites, sem anúncios. Chegou trazendo aquela dor em meu peito que prenuncia transformação. Um ciclo se encerrou com o cortejo do vento sul e pesadas nuvens que, fortes, refreavam as gotas do melancólico choro da despedida. Quando Lillies silenciosamente se deita em meu ombro, uma certeza recai sobre mim: é tempo de não mais crer na premissa de que adeus significa até logo.

1 comentários:
Nossa, gostei mto.
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